sábado, 13 de fevereiro de 2016

Término

   Uma vez mais nos vemos engajados na busca, à qual, aliás, não damos qualquer crédito, e é esta a explicação de nosso sofrimento?

    O problema todo são meus ataques súbitos de paixão do dia a dia? 
    Por minhas falhas, o mais fácil é culpar quem quer que seja (exceto eu). Alguém que desaprovasse algum aspecto da antiga relação pode ser culpado. Pode-se dizer: "ó, como tu queria, finalmente terminamos". Se forem nossos progenitores, podemos culpá-los pelo que somos (isso é ótimo... é absolutamente inútil, exceto para entrar ou permanecer em estado de mania - tudo que não é perfeito no semi-deus que sou, deve-se aos meus pais¹).

    Mas voltemos a eles, os ataques súbitos: independentemente de seu objeto, creio que constituem em comportamentos da associação imaginária entre determinados padrões estéticos e o prazer - este último não necessariamente de forma tão direta: parece agir sobre nós uma cadeia de acontecimentos/comportamentos que conjuga dor e prazer num clima de arte melancólica (qual seja, o amor²).
     Então o grande problema talvez tenha sido uma certa falência dessa cadeia no que diz respeito ao relacionamento que mantivemos? É, foi no que apostamos. A sensação do saco cheio foi um indicador e um motor... injusto, porém, profundamente injusto motor.

    Sabemos muito bem quem controla o senso estético. A educação que me deu a televisão e me diz com que(m) gozar.
    E se ao menos fosse um castelinho que me impedisse de mergulhar nas poças d'água do imaginário que me é proposto... eu tentaria mil vezes mais? Eu culparia a estrutura da relação - "tentemos algo diferente". 
    Não era. E quem construiu esse castelo agora martela comigo nas feridas dela.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O RomEU e suas vicissitudes.

   Estudar, há alguns anos, é uma atividade tensa, algo melancólica. É, sobretudo, se estudar, produzir mim mesmo e projeto (atividades que posso, de fato, a partir de uma referência recente, chamar de melancólicas).

   Atribuímos ao Romeu todas as problemáticas. Pelo nome que lhe demos, carregou ele a culpa pelas ilusões a que se sujeita - ou, por correção, as condições que individualizam - todo o sócius. Há em mim esse desamparo freudiano? Se nossa referência associa essa noção à maturação, numa certa redução da ontogênese humana a um padrão monolítico, talvez eu me sinta mais seguro de pensar num desamparo que é saúde - como pensava, vejam só, o Romeu, junto com o Besta e o Farina.

   De fato, era o que procurávamos: o desamparo "freudiano" --- que para nós era reichiano. Tendo posicionado como neurose tudo aquilo que nos impedia de realizar nossos projetos (ideais), transformávamos o cuidado a nós oferecido em questionamentos do preço desse cuidado. Fizemos tudo isso, é preciso logo dizer, com inúmeras ingenuidades. Imagino algumas: um pouco, não percebíamos o pathos de nossos ideais, de nosso método, de nossa doutrina. Outro pouco, só generalizávamos nossa revolução às categorias mais convenientes (mantendo, não sem alguma hipocrisia, nossa dependência do cuidado parental em pontos muito importantes, como, por exemplo, o econômico).

   Dois poucos. Primeiro (e entretanto referente ao segundo pouco) porque, na verdade, tenho bastante certeza de que fizemos algo incrível, no sentido mesmo de inacreditável, pouco provável --- o que, quando se vive uma vida muito atravessada por marcadores de hegemonia, deve ser muito valorizado. E segundo, porque quanto ao pathos de nossos ideais, tenho a impressão de que os mesmos eram tão polivalentes, enquanto aglomerados de teorias e afetações de todos os lados, tão voltados ao tempo presente e à praxis, que não me sinto, pelo menos neste ponto de minha discussão, apto a igualá-los às formas de utopia hegemônicas. O que quer que tenhamos feito, fizemos com conceitos que foram, antes de tudo, máquinas de guerra, fizemos com uma coragem esquisita e que tenho dificuldades de precisar.

    Um terceiro pathos: eu e o Farina fomos, em demasia, subordinados ao Besta - que de fato pretendia ser nosso mestre. E, na medida em que fomos percebendo tal coisa, nossa aliança tornou-se, por isso e por outras coisas, insustentável. E retornei à cidade de Pallet.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Re Tomos

   I

   Pelo dia de ontem e pelo de hoje, pela semana que passou e pelo que passa em minha cabeça há algumas semanas, talvez num certo acúmulo desde o mês passado ou há alguns anos. É por isso que passo a escrever isto e a pensar numa subjetivação que se constrói e desconstrói intencionalmente a partir  ou através de (ou mais precisamente junto a) alguns discursos. Pelo que aconteceu nu verão que separou os anos de 2011 e 2012, igualmente, que, se fosse descrito por extenso, tornaria irônico estar novamente aqui, no interior da Faculdade de Direito. Também porque hoje, ao olhar-me no espelho, no banheiro deste prédio, percebi que estou mais estrábico do que há dois anos atrás. E também porque corrigi momentaneamente o desvio angular de meus olhos por um exercício de intenção.
   Tomar como  problema o desejo e o processo de subjetivação do ser humano contemporâneo é o avanço epistemológico oferecido pela psicanálise. Aprofundar ou reaprofundar esse avanço é trabalho de freudianos como Reich e Lacan. Para além dos problemas que cada ser social (ou devir - dane-se) enxerga ou recorta de si mesmo - a criação alardeada do inconsciente. Para além dos problemas que o status quo é capaz de denunciar em benefício da própria produtividade (reprodução), num processo de franca ruptura ética, tanto com o indivíduo quanto com a organização social hegemônica, a mais ou menos insuspeitada inspiração do infraego. Num potente romance, os corações corajosos de não muitos - ou, quem sabe, de milhares muito silenciosos - entusiastas, uma preocupação com a técnica revolucionária, com a maquinaria que produz e muda a realidade.

   Entre a reprodução da desigualdade, do sofrimento e da opressão, e a afirmação revolucionária do poder popular e minoritário, a diferença parece ser de consequência, não de origem. A contradição marcante entre o que desejo e o que desejo desejar, minha própria implicação, profunda e dolorosa, nesse problema.
   Ainda, o que enxergo: a implicação de todo desejo revolucionário em máquinas de reprodução capitalísticas, a necessidade e a possibilidade de ruptura em todo encontro.

   II

   Uma situação da psicanálise na franqueza da invenção de seus objetos (o inconsciente à americana? o desejo à francesa?). O que quer que seja: algo entre o comportamento (do corpo) - tomado sob o nome, algo obscuro, de pulsão -, a situação do humano no discurso (em juízo e projeto) - Sujeito no Eu, e no Ideal do Eu, e essa fábrica de pessoinhas que foi chamada, como tanto se deseja - para produzir indivíduos de pleno livre-arbítrio -, de Outro. Ali, algum campo para intervir: ao lado de cada sujeito, guiada por um conhecimento (epistemologicamente rebelde) das farsas da subjetivação contemporânea, uma caminhada que é preciso saber fazer (para sobreviver) e em que cada vitória (imagem do analisante ou do analista, tanto faz) será convenientemente atribuída ao processo analítico.
    Depois de toda essa especulação, hora de ler - e boa noite a você que talvez tenha lido.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

    Olhar e enlouquecer. Ver é sentir e é enlouquecer. A imagem dói. Ela trai.

Retomo

Há muito muito tempo.

É quase uma eternidade. Um cérebro funciona; um processo cognitivo explica algumas coisas; depois volta-se contra si mesmo e percebe que, as explicações, ele as inventou a partir de alguns "dados". Mas - até porque também tem coração - ele toma essas invenções, como todas as outras, para que lhe ajudem a lutar.

Primeiro. As máscaras não se tornaram oikas (interioridades-por-gerir) por acaso. As contas google. Os drives. Foram decisões de viver muitas vidas. Fazer rede num único corpo. A partir destas linhas sabemos que não é tão interessante fazer isso. É preferível que todos nós - que podemos ser trazidos para cá - sejamos plenamente mortais (ou mesmo anjos da morte - pulsões em direção aos não-vividos são pulsões de diferença, de desindividuação).

Segundo. Os momentos de produção das máscaras foram momentos muito interessantes. O problema não foi o nascimento do Lobo, o nascimento da Lilá, nem mesmo do Romeu e do Rûs. Tudo isso foram fugas, em algum momento. Passagens de vida, se quisermos. E acreditamos poder utilizar essa tecnologia tão melhor quanto for possível evitar a transformação da passagem de vida numa espécie de "eu".


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Toda interioridade possível é uma desorganização possível.

Todo sistema possível, um núcleo de culpabilização possível --- toda imagem possível é um dado possível, 1 x \infty de relações causais possíveis.

Eu fabriquei tantas interioridades quanto pude. E preenchi-as com vida --- enchi seus drives de documentos, pastas, imagens, anotações... uma confusão em cada uma. De alguma forma, o meu corpo tem de se ver com todas elas.

A união de duas interioridades sempre produzirá uma síndrome depressiva?
Toda organização é uma união por princípios de identidade?

Cada conjunto de coisas numa pasta. A identidade é só uma ferramenta para acessar rapidamente. A identidade tem sua ficção admitida e tomada como máquina.

Não será também isto uma forma de sobrecarregar-me de interioridades...?