quarta-feira, 20 de abril de 2016

Alguma consistência

   E engraçado, porque temos postado só seriedades;

   E delas temos vivido, ou melhor, entre nossa capacidade de assim viver e nossa incapacidade: o lixo que produzimos por tentar; lixo comportamental, sobretudo.

   Olhaste pra mim às portas do império mais vil. Que dizia o teu olhar? Não soube. Senti que te conhecia. Quase parei para cumprimentar-te. De fato esbocei esse gesto e sinto que esboçavas reação. Ah. Dona de ti mesma, do teu destino, de tuas decisões, eu humildemente peço: olha-me assim novamente se nos virmos outra vez. Deixa-me reviver esse encontro tão belo ou angustiar-me por desconcluir novamente nosso cumprimento!

sábado, 2 de abril de 2016

Desejo de rigor.

    Tenho sentido a necessidade de colocar algumas balizas no pensamento. Estabelecer com a realidade uma relação mais digna do meu posicionamento em relação à vida. Rapidamente, dou-vos alguma noção deste último: digo a) que a ele me conecto a partir, principalmente, de inibições e de uma ou mais fixações, que sinto principalmente num desejo de supercompensação (o qual desloco, entretanto, com este tipo de racionalização); b) que o tenho buscado incluir em melhor metáfora, com algumas palavras de poetas que admiro, que dizem que a vida "é um presente para ser vivido e amado"¹; pensando minha condição, traduzi livremente: a finitude  que estabelece o valor da minha vida é a mais difícil de ser medida, assim como o investimento múltiplo que a constitui enquanto potência. Os próximos dias que provavelmente viverei, os próximos anos sobre os quais não tenho segurança alguma, e a segurança que pretendo, derivada das condições que vejo necessárias para meus projetos... Acabo concluindo que cada segundo vale pelo "não-mensurável" de sua finitude. Respiro cada vez como se fosse a última. E tento fazer de minhas respirações, dos percalços com que preencho, a cada instante, meu possível último instante, atualizações cuidadosas com o projeto (ou, melhor, com a potência) e atentas para a finitude.
    Inclinado a pedir perdão pelo que pode parecer um devaneio, digo que essa metáfora hiperabrangente pela qual posiciono racionalmente minha vida tem tudo a ver com o desejo de rigor que aqui descrevo. Trata-se, ao que me parece, da mesma coisa: fazer a vida valer em sua potência e em sua finitude, fazer as ferramentas de que dispomos servirem, o máximo possível, a essa vida (que pode acabar em 3,2,1 --- levando tudo o que aprendemos, sentimos, pensamos, para ...? Talvez "bem longe", como na metáfora infantil). Dito isso, penso ter justificado a existência de algum tipo de rigor, mesmo que seja o da "intensidade", alguma coisa como dizer, por exemplo, que um embotamento muito forte tem motivos justos para ser considerado triste --- ou, simplesmente, em algum grau, que ele seja uma derrota da vida, o que para mim é óbvio, inclusive pelo desfecho comum do suicídio.
    Resta, ainda, a tarefa de justificar os meus rigores.

    Em primeiro lugar, meu amor à vida gosta de ser contagioso e acaba estendendo-se a toda forma de vida. Desejo preservar e expandir toda forma de vida e entendo que a inteligência capaz de fazê-lo justifica-se na ética da evolução e na ética humana pelo desejo de conservação. Quanto à liberdade de morrer, creio justificar-me pois, nos casos em que isso torna-se assunto, os desfechos posteriores costumam revelar a subestimação da potência da vida (evidentemente, quando o desfecho não é a morte).
    Em segundo lugar, meu amor à vida gosta de ser contagioso e acaba estendendo-se ao seu "como", e assim, ao sofrimento e às coisas do campo do reforçamento, do prazer, da felicidade, da alegria e mesmo da fortuna. Considero, por isso, a profunda desigualdade de condições que existe neste mundo, especialmente em humanos e mesmo em outros primatas, cuja potência é tão dependente de atualização, um atentado contra a vida (em potência, em conservação). 
     E, assim, creio ter enumerado os principais pontos que estabelecem os argumentos éticos para meu rigor, as "balizas" que mencionei ao início. Na prática, esse rigor estabelece a utilidade do poder de predição, ou a necessidade de compreensões que estabeleçam diálogos úteis --- no sentido dos argumentos colocados --- com a realidade. Em que impasses têm me colocado e, talvez, algum progresso nesse sentido a partir das reflexões deste pequeno pedaço de cybermundoimundo, deixarei para um próximo pedaço a ser constituído.
     Abraços, gente querida que tem lido. Conto com vossas contribuições.

NOTA:
1: ... nesse impulso de beleza, e talvez por tradição (algo, nesse caso, cuja aniquilação é recomendável), brinco com o pensamento freudiano, pensando que esse "amar a vida" pode vir como um narcisismo primário; mas concedo-lhe, quando penso, principalmente as característica daquilo que o Freud pensou como "impulsos de autoconservação do Eu".

domingo, 6 de março de 2016

A volta de Jeisu, o poeta socialista.

   Tenho sentido falta de ter um amigo ou uma amiga com quem eu pudesse tratar dos assuntos que a mim importam.

   Sinto que respeito demais a bolha em que viveis.

    E... bom, talvez estejais apenas a respeitar a minha.

    Jeisu

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Término

   Uma vez mais nos vemos engajados na busca, à qual, aliás, não damos qualquer crédito, e é esta a explicação de nosso sofrimento?

    O problema todo são meus ataques súbitos de paixão do dia a dia? 
    Por minhas falhas, o mais fácil é culpar quem quer que seja (exceto eu). Alguém que desaprovasse algum aspecto da antiga relação pode ser culpado. Pode-se dizer: "ó, como tu queria, finalmente terminamos". Se forem nossos progenitores, podemos culpá-los pelo que somos (isso é ótimo... é absolutamente inútil, exceto para entrar ou permanecer em estado de mania - tudo que não é perfeito no semi-deus que sou, deve-se aos meus pais¹).

    Mas voltemos a eles, os ataques súbitos: independentemente de seu objeto, creio que constituem em comportamentos da associação imaginária entre determinados padrões estéticos e o prazer - este último não necessariamente de forma tão direta: parece agir sobre nós uma cadeia de acontecimentos/comportamentos que conjuga dor e prazer num clima de arte melancólica (qual seja, o amor²).
     Então o grande problema talvez tenha sido uma certa falência dessa cadeia no que diz respeito ao relacionamento que mantivemos? É, foi no que apostamos. A sensação do saco cheio foi um indicador e um motor... injusto, porém, profundamente injusto motor.

    Sabemos muito bem quem controla o senso estético. A educação que me deu a televisão e me diz com que(m) gozar.
    E se ao menos fosse um castelinho que me impedisse de mergulhar nas poças d'água do imaginário que me é proposto... eu tentaria mil vezes mais? Eu culparia a estrutura da relação - "tentemos algo diferente". 
    Não era. E quem construiu esse castelo agora martela comigo nas feridas dela.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O RomEU e suas vicissitudes.

   Estudar, há alguns anos, é uma atividade tensa, algo melancólica. É, sobretudo, se estudar, produzir mim mesmo e projeto (atividades que posso, de fato, a partir de uma referência recente, chamar de melancólicas).

   Atribuímos ao Romeu todas as problemáticas. Pelo nome que lhe demos, carregou ele a culpa pelas ilusões a que se sujeita - ou, por correção, as condições que individualizam - todo o sócius. Há em mim esse desamparo freudiano? Se nossa referência associa essa noção à maturação, numa certa redução da ontogênese humana a um padrão monolítico, talvez eu me sinta mais seguro de pensar num desamparo que é saúde - como pensava, vejam só, o Romeu, junto com o Besta e o Farina.

   De fato, era o que procurávamos: o desamparo "freudiano" --- que para nós era reichiano. Tendo posicionado como neurose tudo aquilo que nos impedia de realizar nossos projetos (ideais), transformávamos o cuidado a nós oferecido em questionamentos do preço desse cuidado. Fizemos tudo isso, é preciso logo dizer, com inúmeras ingenuidades. Imagino algumas: um pouco, não percebíamos o pathos de nossos ideais, de nosso método, de nossa doutrina. Outro pouco, só generalizávamos nossa revolução às categorias mais convenientes (mantendo, não sem alguma hipocrisia, nossa dependência do cuidado parental em pontos muito importantes, como, por exemplo, o econômico).

   Dois poucos. Primeiro (e entretanto referente ao segundo pouco) porque, na verdade, tenho bastante certeza de que fizemos algo incrível, no sentido mesmo de inacreditável, pouco provável --- o que, quando se vive uma vida muito atravessada por marcadores de hegemonia, deve ser muito valorizado. E segundo, porque quanto ao pathos de nossos ideais, tenho a impressão de que os mesmos eram tão polivalentes, enquanto aglomerados de teorias e afetações de todos os lados, tão voltados ao tempo presente e à praxis, que não me sinto, pelo menos neste ponto de minha discussão, apto a igualá-los às formas de utopia hegemônicas. O que quer que tenhamos feito, fizemos com conceitos que foram, antes de tudo, máquinas de guerra, fizemos com uma coragem esquisita e que tenho dificuldades de precisar.

    Um terceiro pathos: eu e o Farina fomos, em demasia, subordinados ao Besta - que de fato pretendia ser nosso mestre. E, na medida em que fomos percebendo tal coisa, nossa aliança tornou-se, por isso e por outras coisas, insustentável. E retornei à cidade de Pallet.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Re Tomos

   I

   Pelo dia de ontem e pelo de hoje, pela semana que passou e pelo que passa em minha cabeça há algumas semanas, talvez num certo acúmulo desde o mês passado ou há alguns anos. É por isso que passo a escrever isto e a pensar numa subjetivação que se constrói e desconstrói intencionalmente a partir  ou através de (ou mais precisamente junto a) alguns discursos. Pelo que aconteceu nu verão que separou os anos de 2011 e 2012, igualmente, que, se fosse descrito por extenso, tornaria irônico estar novamente aqui, no interior da Faculdade de Direito. Também porque hoje, ao olhar-me no espelho, no banheiro deste prédio, percebi que estou mais estrábico do que há dois anos atrás. E também porque corrigi momentaneamente o desvio angular de meus olhos por um exercício de intenção.
   Tomar como  problema o desejo e o processo de subjetivação do ser humano contemporâneo é o avanço epistemológico oferecido pela psicanálise. Aprofundar ou reaprofundar esse avanço é trabalho de freudianos como Reich e Lacan. Para além dos problemas que cada ser social (ou devir - dane-se) enxerga ou recorta de si mesmo - a criação alardeada do inconsciente. Para além dos problemas que o status quo é capaz de denunciar em benefício da própria produtividade (reprodução), num processo de franca ruptura ética, tanto com o indivíduo quanto com a organização social hegemônica, a mais ou menos insuspeitada inspiração do infraego. Num potente romance, os corações corajosos de não muitos - ou, quem sabe, de milhares muito silenciosos - entusiastas, uma preocupação com a técnica revolucionária, com a maquinaria que produz e muda a realidade.

   Entre a reprodução da desigualdade, do sofrimento e da opressão, e a afirmação revolucionária do poder popular e minoritário, a diferença parece ser de consequência, não de origem. A contradição marcante entre o que desejo e o que desejo desejar, minha própria implicação, profunda e dolorosa, nesse problema.
   Ainda, o que enxergo: a implicação de todo desejo revolucionário em máquinas de reprodução capitalísticas, a necessidade e a possibilidade de ruptura em todo encontro.

   II

   Uma situação da psicanálise na franqueza da invenção de seus objetos (o inconsciente à americana? o desejo à francesa?). O que quer que seja: algo entre o comportamento (do corpo) - tomado sob o nome, algo obscuro, de pulsão -, a situação do humano no discurso (em juízo e projeto) - Sujeito no Eu, e no Ideal do Eu, e essa fábrica de pessoinhas que foi chamada, como tanto se deseja - para produzir indivíduos de pleno livre-arbítrio -, de Outro. Ali, algum campo para intervir: ao lado de cada sujeito, guiada por um conhecimento (epistemologicamente rebelde) das farsas da subjetivação contemporânea, uma caminhada que é preciso saber fazer (para sobreviver) e em que cada vitória (imagem do analisante ou do analista, tanto faz) será convenientemente atribuída ao processo analítico.
    Depois de toda essa especulação, hora de ler - e boa noite a você que talvez tenha lido.