Estudar, há alguns anos, é uma atividade tensa, algo melancólica. É, sobretudo, se estudar, produzir mim mesmo e projeto (atividades que posso, de fato, a partir de uma referência recente, chamar de melancólicas).
Atribuímos ao Romeu todas as problemáticas. Pelo nome que lhe demos, carregou ele a culpa pelas ilusões a que se sujeita - ou, por correção, as condições que individualizam - todo o sócius. Há em mim esse desamparo freudiano? Se nossa referência associa essa noção à maturação, numa certa redução da ontogênese humana a um padrão monolítico, talvez eu me sinta mais seguro de pensar num desamparo que é saúde - como pensava, vejam só, o Romeu, junto com o Besta e o Farina.
De fato, era o que procurávamos: o desamparo "freudiano" --- que para nós era reichiano. Tendo posicionado como neurose tudo aquilo que nos impedia de realizar nossos projetos (ideais), transformávamos o cuidado a nós oferecido em questionamentos do preço desse cuidado. Fizemos tudo isso, é preciso logo dizer, com inúmeras ingenuidades. Imagino algumas: um pouco, não percebíamos o pathos de nossos ideais, de nosso método, de nossa doutrina. Outro pouco, só generalizávamos nossa revolução às categorias mais convenientes (mantendo, não sem alguma hipocrisia, nossa dependência do cuidado parental em pontos muito importantes, como, por exemplo, o econômico).
Dois poucos. Primeiro (e entretanto referente ao segundo pouco) porque, na verdade, tenho bastante certeza de que fizemos algo incrível, no sentido mesmo de inacreditável, pouco provável --- o que, quando se vive uma vida muito atravessada por marcadores de hegemonia, deve ser muito valorizado. E segundo, porque quanto ao pathos de nossos ideais, tenho a impressão de que os mesmos eram tão polivalentes, enquanto aglomerados de teorias e afetações de todos os lados, tão voltados ao tempo presente e à praxis, que não me sinto, pelo menos neste ponto de minha discussão, apto a igualá-los às formas de utopia hegemônicas. O que quer que tenhamos feito, fizemos com conceitos que foram, antes de tudo, máquinas de guerra, fizemos com uma coragem esquisita e que tenho dificuldades de precisar.
Um terceiro pathos: eu e o Farina fomos, em demasia, subordinados ao Besta - que de fato pretendia ser nosso mestre. E, na medida em que fomos percebendo tal coisa, nossa aliança tornou-se, por isso e por outras coisas, insustentável. E retornei à cidade de Pallet.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Re Tomos
I
Pelo dia de ontem e pelo de hoje, pela semana que passou e pelo que passa em minha cabeça há algumas semanas, talvez num certo acúmulo desde o mês passado ou há alguns anos. É por isso que passo a escrever isto e a pensar numa subjetivação que se constrói e desconstrói intencionalmente a partir ou através de (ou mais precisamente junto a) alguns discursos. Pelo que aconteceu nu verão que separou os anos de 2011 e 2012, igualmente, que, se fosse descrito por extenso, tornaria irônico estar novamente aqui, no interior da Faculdade de Direito. Também porque hoje, ao olhar-me no espelho, no banheiro deste prédio, percebi que estou mais estrábico do que há dois anos atrás. E também porque corrigi momentaneamente o desvio angular de meus olhos por um exercício de intenção.
Tomar como problema o desejo e o processo de subjetivação do ser humano contemporâneo é o avanço epistemológico oferecido pela psicanálise. Aprofundar ou reaprofundar esse avanço é trabalho de freudianos como Reich e Lacan. Para além dos problemas que cada ser social (ou devir - dane-se) enxerga ou recorta de si mesmo - a criação alardeada do inconsciente. Para além dos problemas que o status quo é capaz de denunciar em benefício da própria produtividade (reprodução), num processo de franca ruptura ética, tanto com o indivíduo quanto com a organização social hegemônica, a mais ou menos insuspeitada inspiração do infraego. Num potente romance, os corações corajosos de não muitos - ou, quem sabe, de milhares muito silenciosos - entusiastas, uma preocupação com a técnica revolucionária, com a maquinaria que produz e muda a realidade.
Entre a reprodução da desigualdade, do sofrimento e da opressão, e a afirmação revolucionária do poder popular e minoritário, a diferença parece ser de consequência, não de origem. A contradição marcante entre o que desejo e o que desejo desejar, minha própria implicação, profunda e dolorosa, nesse problema.
Ainda, o que enxergo: a implicação de todo desejo revolucionário em máquinas de reprodução capitalísticas, a necessidade e a possibilidade de ruptura em todo encontro.
II
Uma situação da psicanálise na franqueza da invenção de seus objetos (o inconsciente à americana? o desejo à francesa?). O que quer que seja: algo entre o comportamento (do corpo) - tomado sob o nome, algo obscuro, de pulsão -, a situação do humano no discurso (em juízo e projeto) - Sujeito no Eu, e no Ideal do Eu, e essa fábrica de pessoinhas que foi chamada, como tanto se deseja - para produzir indivíduos de pleno livre-arbítrio -, de Outro. Ali, algum campo para intervir: ao lado de cada sujeito, guiada por um conhecimento (epistemologicamente rebelde) das farsas da subjetivação contemporânea, uma caminhada que é preciso saber fazer (para sobreviver) e em que cada vitória (imagem do analisante ou do analista, tanto faz) será convenientemente atribuída ao processo analítico.
Depois de toda essa especulação, hora de ler - e boa noite a você que talvez tenha lido.
Pelo dia de ontem e pelo de hoje, pela semana que passou e pelo que passa em minha cabeça há algumas semanas, talvez num certo acúmulo desde o mês passado ou há alguns anos. É por isso que passo a escrever isto e a pensar numa subjetivação que se constrói e desconstrói intencionalmente a partir ou através de (ou mais precisamente junto a) alguns discursos. Pelo que aconteceu nu verão que separou os anos de 2011 e 2012, igualmente, que, se fosse descrito por extenso, tornaria irônico estar novamente aqui, no interior da Faculdade de Direito. Também porque hoje, ao olhar-me no espelho, no banheiro deste prédio, percebi que estou mais estrábico do que há dois anos atrás. E também porque corrigi momentaneamente o desvio angular de meus olhos por um exercício de intenção.
Tomar como problema o desejo e o processo de subjetivação do ser humano contemporâneo é o avanço epistemológico oferecido pela psicanálise. Aprofundar ou reaprofundar esse avanço é trabalho de freudianos como Reich e Lacan. Para além dos problemas que cada ser social (ou devir - dane-se) enxerga ou recorta de si mesmo - a criação alardeada do inconsciente. Para além dos problemas que o status quo é capaz de denunciar em benefício da própria produtividade (reprodução), num processo de franca ruptura ética, tanto com o indivíduo quanto com a organização social hegemônica, a mais ou menos insuspeitada inspiração do infraego. Num potente romance, os corações corajosos de não muitos - ou, quem sabe, de milhares muito silenciosos - entusiastas, uma preocupação com a técnica revolucionária, com a maquinaria que produz e muda a realidade.
Entre a reprodução da desigualdade, do sofrimento e da opressão, e a afirmação revolucionária do poder popular e minoritário, a diferença parece ser de consequência, não de origem. A contradição marcante entre o que desejo e o que desejo desejar, minha própria implicação, profunda e dolorosa, nesse problema.
Ainda, o que enxergo: a implicação de todo desejo revolucionário em máquinas de reprodução capitalísticas, a necessidade e a possibilidade de ruptura em todo encontro.
II
Uma situação da psicanálise na franqueza da invenção de seus objetos (o inconsciente à americana? o desejo à francesa?). O que quer que seja: algo entre o comportamento (do corpo) - tomado sob o nome, algo obscuro, de pulsão -, a situação do humano no discurso (em juízo e projeto) - Sujeito no Eu, e no Ideal do Eu, e essa fábrica de pessoinhas que foi chamada, como tanto se deseja - para produzir indivíduos de pleno livre-arbítrio -, de Outro. Ali, algum campo para intervir: ao lado de cada sujeito, guiada por um conhecimento (epistemologicamente rebelde) das farsas da subjetivação contemporânea, uma caminhada que é preciso saber fazer (para sobreviver) e em que cada vitória (imagem do analisante ou do analista, tanto faz) será convenientemente atribuída ao processo analítico.
Depois de toda essa especulação, hora de ler - e boa noite a você que talvez tenha lido.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Retomo
Há muito muito tempo.
É quase uma eternidade. Um cérebro funciona; um processo cognitivo explica algumas coisas; depois volta-se contra si mesmo e percebe que, as explicações, ele as inventou a partir de alguns "dados". Mas - até porque também tem coração - ele toma essas invenções, como todas as outras, para que lhe ajudem a lutar.
Primeiro. As máscaras não se tornaram oikas (interioridades-por-gerir) por acaso. As contas google. Os drives. Foram decisões de viver muitas vidas. Fazer rede num único corpo. A partir destas linhas sabemos que não é tão interessante fazer isso. É preferível que todos nós - que podemos ser trazidos para cá - sejamos plenamente mortais (ou mesmo anjos da morte - pulsões em direção aos não-vividos são pulsões de diferença, de desindividuação).
Segundo. Os momentos de produção das máscaras foram momentos muito interessantes. O problema não foi o nascimento do Lobo, o nascimento da Lilá, nem mesmo do Romeu e do Rûs. Tudo isso foram fugas, em algum momento. Passagens de vida, se quisermos. E acreditamos poder utilizar essa tecnologia tão melhor quanto for possível evitar a transformação da passagem de vida numa espécie de "eu".
É quase uma eternidade. Um cérebro funciona; um processo cognitivo explica algumas coisas; depois volta-se contra si mesmo e percebe que, as explicações, ele as inventou a partir de alguns "dados". Mas - até porque também tem coração - ele toma essas invenções, como todas as outras, para que lhe ajudem a lutar.
Primeiro. As máscaras não se tornaram oikas (interioridades-por-gerir) por acaso. As contas google. Os drives. Foram decisões de viver muitas vidas. Fazer rede num único corpo. A partir destas linhas sabemos que não é tão interessante fazer isso. É preferível que todos nós - que podemos ser trazidos para cá - sejamos plenamente mortais (ou mesmo anjos da morte - pulsões em direção aos não-vividos são pulsões de diferença, de desindividuação).
Segundo. Os momentos de produção das máscaras foram momentos muito interessantes. O problema não foi o nascimento do Lobo, o nascimento da Lilá, nem mesmo do Romeu e do Rûs. Tudo isso foram fugas, em algum momento. Passagens de vida, se quisermos. E acreditamos poder utilizar essa tecnologia tão melhor quanto for possível evitar a transformação da passagem de vida numa espécie de "eu".
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Toda interioridade possível é uma desorganização possível.
Todo sistema possível, um núcleo de culpabilização possível --- toda imagem possível é um dado possível, 1 x
de relações causais possíveis.
Eu fabriquei tantas interioridades quanto pude. E preenchi-as com vida --- enchi seus drives de documentos, pastas, imagens, anotações... uma confusão em cada uma. De alguma forma, o meu corpo tem de se ver com todas elas.
A união de duas interioridades sempre produzirá uma síndrome depressiva?
Toda organização é uma união por princípios de identidade?
Cada conjunto de coisas numa pasta. A identidade é só uma ferramenta para acessar rapidamente. A identidade tem sua ficção admitida e tomada como máquina.
Não será também isto uma forma de sobrecarregar-me de interioridades...?
Todo sistema possível, um núcleo de culpabilização possível --- toda imagem possível é um dado possível, 1 x
de relações causais possíveis.Eu fabriquei tantas interioridades quanto pude. E preenchi-as com vida --- enchi seus drives de documentos, pastas, imagens, anotações... uma confusão em cada uma. De alguma forma, o meu corpo tem de se ver com todas elas.
A união de duas interioridades sempre produzirá uma síndrome depressiva?
Toda organização é uma união por princípios de identidade?
Cada conjunto de coisas numa pasta. A identidade é só uma ferramenta para acessar rapidamente. A identidade tem sua ficção admitida e tomada como máquina.
Não será também isto uma forma de sobrecarregar-me de interioridades...?
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Sentimento profundo do Submundo
Oh, sim, rapidamente, rapidamente,
é necessário tomar breve nota pois ontem a imagem surgiu
tudo funcionando bem, a imagem recortada sobre a cama organizada, coração bem, pulmões bem, tudo bem.
Na interioridade, uma história, um sonho e um beijo. Beijamos. Uma pessoa especial. Que função cumpria? A menina "do vestido da cor da romãzeira". Cumpria mesmo uma função? No meio da funcionalidade, Freud disse que as imagens do dia podem ser apenas roupagens para o que realmente importa (isso pra ele se coloca em termos de papai-mamãe-ego-falta -> 3+1). Se quisermos colocar a funcionar o regime do 4+n, podemos pensar num órgão respeitável como o cérebro produzindo suas respeitáveis organizações. Um beijo, que seria? A imagem, que seria? Aquela imagem... aquela pessoa... termos nos lembrado dela como alguém tão inacessível (alguém com quem esse encontro de lábios é uma conexão de realidades algo cindidas... --- de fato, essa cisão só pode ser aceita na medida em que é imaginária).
E temos uma interpretação...
aplausos.
Mas não só isso!
A cisão não é apenas imaginária, ela é também política. A saber, só não tanto quanto a política é imaginária (risos).
Mas rapidamente! ....
Queremos beijinho.
Conectar o mundinho.
Tão distante, tão incolhidinho.
Com o castelinho loiro de olhos azuis? Não só isso. Com o mundo desencolhidinho.
Será o beijinho a única ponte possível? Como desencolho o meu mundinho?
Nada feito dessas interrogações que ficam cartesianas até quando enunciadas pelo bebê.
O sentimento profundo do meu submundo.
Que potências ele guarda? As tenho sentido...
E a pergunta broxante: como desejar outra coisa? Por que eu quero o que eu quero?
é necessário tomar breve nota pois ontem a imagem surgiu
tudo funcionando bem, a imagem recortada sobre a cama organizada, coração bem, pulmões bem, tudo bem.
Na interioridade, uma história, um sonho e um beijo. Beijamos. Uma pessoa especial. Que função cumpria? A menina "do vestido da cor da romãzeira". Cumpria mesmo uma função? No meio da funcionalidade, Freud disse que as imagens do dia podem ser apenas roupagens para o que realmente importa (isso pra ele se coloca em termos de papai-mamãe-ego-falta -> 3+1). Se quisermos colocar a funcionar o regime do 4+n, podemos pensar num órgão respeitável como o cérebro produzindo suas respeitáveis organizações. Um beijo, que seria? A imagem, que seria? Aquela imagem... aquela pessoa... termos nos lembrado dela como alguém tão inacessível (alguém com quem esse encontro de lábios é uma conexão de realidades algo cindidas... --- de fato, essa cisão só pode ser aceita na medida em que é imaginária).
E temos uma interpretação...
aplausos.
Mas não só isso!
A cisão não é apenas imaginária, ela é também política. A saber, só não tanto quanto a política é imaginária (risos).
Mas rapidamente! ....
Queremos beijinho.
Conectar o mundinho.
Tão distante, tão incolhidinho.
Com o castelinho loiro de olhos azuis? Não só isso. Com o mundo desencolhidinho.
Será o beijinho a única ponte possível? Como desencolho o meu mundinho?
Nada feito dessas interrogações que ficam cartesianas até quando enunciadas pelo bebê.
O sentimento profundo do meu submundo.
Que potências ele guarda? As tenho sentido...
E a pergunta broxante: como desejar outra coisa? Por que eu quero o que eu quero?
terça-feira, 29 de setembro de 2015
Sonoro.
Estou com vontade de um calor do abraço sincero e acolhedor. Algo continente. Há algum tempo (nem me lembro) desloquei (?) esse tipo de abraço e não sinto nenhuma vontade dele com a minha mãe. Eu sinto vontade dele com as pessoas que eu fico (ou com pessoas que eu gostaria de ficar).
Um retorno, fruto desta semana, me faz sentir esse calor como algo importante de novo.
Um outro retorno me faz pensar no que ele esconde.
Um outro retorno me oferece outro caminho para esse mesmo calor.
Um outro... que eu devo chamar de platô? se oferece como permanência, na versão desse calor que tenho tido.
Permaneço.
Quem tenho sido?
A vida me soterra e eu sou a gota d'água deslisando inevitavelmente, seduzida pelo centro da Terra.
Antes era possível discutir uma linha de fuga da máquina individual.
Agora discuto a sua importância e estratégias de autodisciplina.
Agora repercuto.
Sou sono. (ato falho!)
so- so- so- sonoro.
Um retorno, fruto desta semana, me faz sentir esse calor como algo importante de novo.
Um outro retorno me faz pensar no que ele esconde.
Um outro retorno me oferece outro caminho para esse mesmo calor.
Um outro... que eu devo chamar de platô? se oferece como permanência, na versão desse calor que tenho tido.
Permaneço.
Quem tenho sido?
A vida me soterra e eu sou a gota d'água deslisando inevitavelmente, seduzida pelo centro da Terra.
Antes era possível discutir uma linha de fuga da máquina individual.
Agora discuto a sua importância e estratégias de autodisciplina.
Agora repercuto.
Sou sono. (ato falho!)
so- so- so- sonoro.
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