Preciso ainda adicionar uma observação sobre o sintoma da máquina simbólica satânica: que ela opera por ataque a espantalhos simbólicos, ou seja, que ela torna a angústia controlável pelo ataque a símbolos do conflito. A saber, o símbolo que dá nome a essa máquina (Satanás) tem funcionado como expiação de angústia através do ataque a um inimigo que já morreu há muito tempo (Deus). Atacar Deus tem sido expiação para problemas mais atuais, que são políticos, não Simbólicos e nem Reais no sentido lacaniano. Assim mesmo, tenho percebido que, apesar de Freud não ter podido enunciá-lo, são nada mais do que imagens para forças políticas o Isso, o Eu e o Supereu.
Rebele-se contra a opressão num único gesto obsceno diante da cruz.
domingo, 14 de dezembro de 2014
Análise
É preciso desenvolver tudo no território da racionalidade
que venho criando. É preciso explanar,
demonstrar por que relações um certo sentido é admissível. Depois transformamos
isso numa máquina de guerra através da arte. Mas primeiro isso: um diário onde
tudo é racionalizado ao extremo e temos algumas contingências mais ou menos em
conta, em medida. E aí vai:
è
Do funcionamento do símbolo de repulsão, é
preciso estabelecer algumas de suas características. Estamos totalmente
afetadxs por isso e seria mais fácil gozar pela arte antes de escrever. Ou
analisar essa “sublimação” e não uma deriva racionalizada do sentimento...
mesmo assim, prosseguimos: queremos analisar material vivo e pulsante.
a) Que seu funcionamento é mais
político do que “sublimante”. Ou (para ser sincero, devo admitir) é sublimante,
mas sem se tornar inofensivo por isso – ou perder completamente seu valor
político. Lembre-se que há uma raiva funcionando como “não preciso mais de
você”. O sentimento de abandono pode ser substituído por uma individualidade
plenamente autoafirmada: eu, eu mesmo, eu fechado, eu que sou e não preciso de
nada disso, eu que me enfureço e posso repelir tudo o que você oferece
(protótipos: leite, amor, cultura, amor, controle, amor...). Há uma projeção da
dor no Outro e, por isso, uma integração e ainda um fechamento do Eu.
b) Que Que a ofensa vem negar a
antiga relação de necessidade. Ou seja, há uma outra projeção do prazer no Eu.
Esse novo aspecto, que eu poderia chamar de narcísico, repete-se na história:
Em Rûs-Têm ele é a morte de Ela. Em Romeu, é Tyler Durden. Em Lilá, é a beleza
da mulher. No Lobo, a raiva absurda, a violação total do desejo do Outro é
introjetada novamente, e preciso pensar alguns movimentos:
I: a identificação Lilá envolve
também uma introjeção depressiva do Outro odiado. Isso permitiu odiar menos o
fora, borrar as fronteiras, trazer a multiplicidade pro jogo – desdefinir: quem
sou, quem somos? – e então o Lobo:
II: O Lobo surge como nova
ruptura paranoica. A marca de seus caninos, a marca de sua pata, tudo isso
aparece como uma divisão polar entre masculino-feminino, eu-outro, e nossa
afeição ao Eu e nosso ódio ao Outro manifesta-se sempre pelo ódio do Lobo a uma
Lilá acorrentadora. E aí a denúncia feita pelo Lobo: a atitude que introjetou o
Outro prendeu um Eu mais antigo e odioso.
Aí fico
pensando em qual posição defenderei, aquela que aparentemente acorrenta uma
figura odiosa e falsamente autossuficiente ou aquela que integra, a duras
penas, uma uta de classes que não podemos negar nem mesmo a nível do Infraego.
E a resposta é precisa ser “depressiva”, mas precisamente desse jeito:
è
Numa afirmação de que o Lobo – ou Rûs-Têm – só
pode defender a si mesmo, mas ignora multiplicidade e causa muito sofrimento a
seu redor. Ele serve, precisamente, para defender-nos da depressão quando ela é
muito esmagadora, quando abaixar a cabeça representar a morte toda, e o
tivermos que evitar.
è
Numa afirmação de que, salvo nos danos mais ou
menos propositais de sua ignorância, a
posição “depressiva” (integradora) está em defesa do todo. Ela defende posições
políticas que pode considerar, as multiplicidades todas, justamente porque sua
missão política envolve a integração, envolve compreender outros todos,
trabalhar não apenas por si (por Lobo, Lilá ou o inferno, mas por todxs que
puder – abrir espaços onde não haveria).
Tudo isso é
sua missão.
domingo, 7 de dezembro de 2014
Boca, Bode e Rizoma
Pela pirueta mortal da teorização racional mais ou menos apoiada pelas evidências, chegamos novamente a Wilhelm Reich. Quer dizer, identificamos três estratos. Mas poderíamos ver quatro, cinco, ou mil. Mas o que vale publicar é o resultado da psicanálise:
Uma boca, que é a boca do plenamente recalcado e esquecido - nossa amnésia infantil quase completa. Ou seja, não podemos dizer quase nada a respeito.
Depois um registro em forma de pentagrama satânico. Uma reação odiosa à afetividade que é negada (e então se supõe que tenha sido negada. É mera suposição, a menos que fosse possível suspender retroativamente o recalque.
Por último, um rizoma, ou seja, a possibilidade de reativar a política da coisa: mil forças são mil vias e a produção é retomada de forma criativa (mas não pelo aparecimento de um sujeito furado, e sim pela mudança nas relações de poder - há espaço para sujeito no sócius -, ainda que seja preciso admitir, com Vigotsky, Freud e Lacan, a importância de um espaço para o sócius no sujeito).
Mas eu também quero pirar um pouco aqui. Contar pra vocês: há um certo orgulho de existir agressivo, que temos resgatado. Isso não é exatamente bonito... precisamos criticar e destruir, talvez, reconstruir e começar de novo. Mas suspendemos todos os falsos movimentos que, disfarçados de revolução, estavam a reforçar estruturas superegoicas. A saber: a desconexão não me fez avançar muito... foi importante, se pá, mas não nos ajudou tanto a ter potência.
E aí pudemos mostrar nossa tomada.
- Ei,você, veja como quero que meu desejo encaixe no seu! - pode ser o primeiro passo para passarmos a desejar juntxs. Mas (e me enganei muito pensando o contrário!) é preciso que os desejos separados se toquem para que possam se juntar. Nenhuma operação ascética vai fazer esse trabalho. Nenhuma-nenhuma. Agora, isso não quer dizer que você precisa ser escrotx. É só a necessidade pragmática de fazer ver a forma dada ao seu desejo ali.
Aí há uma função da fantasia: que o desejo possa ganhar forma no modo-indivíduo para ser comunicado e compartilhado. Quanto mais você puder produzir em conjunto, menos vai precisar de fantasia, já que as coisas vão acontecer como todxs querem. A outra coisa é que pode rolar uma fantasia coletiva, mas aí temos umas utopia e uma ideologia. E isso é OK, também - mas veja que, provavelmente, os problemas que ocorriam na escalação indivíduo x grupo podem se repetir na nova divisão grupo x grupo ou grupo x natureza. Ecosoficamente, cabe tentar desejar com o planeta todo, ou com o mundo todo. E isso é, sem dúvida, um desafio à sensibilidade.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Romeu Personagem
Se os seus fantasmas tiverem dado uma passeada por aí e encontrado você na rua, talvez seja interessante atear fogo em sua casa e ir embora. Não há exorcista suficiente para alguns demônios, diz-nos o estado da arte sobre demônios.
Entretanto, mesmo isso é pura árvore: não nos importamos com o retorno, porque não nos interessa o recalque. Não é num caixão que Romeu serve aos nossos propósitos, mas sim num museu ou dissecado em um laboratório. Por metafórico que seja, Romeu enterrado fortalece apenas árvores, arborescências e raízes encrustadas na terra e referidas sempre a um mesmo caule e dirigidas ao Sol.
E quanta coisa faz o desejo além de querer Sol!
Servimos Romeu na mesa, como ele mesmo pode prever antes da morte:
Rasgando a realeza, a real lesa, ar e a lesa,
Mastigo sua pele,
Meu mal
tenho
à mesa!
E devoramos. E é num estômago genital, no sentido reichiano, que ele será digerido. Será criação coletiva, não será dado como presente a ninguém, nem retido como um tesouro. Será produção socialista.
Mas Romeu não psicografa porque não é ego algum, Romeu é teatro, puro teatro de um falso futuro-meta, de péssimo gosto. Cafoníssimo, como diria algum de nossos colegas. O Romeu produzido, repetimos, não era ego, não era personalidade, não era nada além de teatro: superego, no máximo dos máximos, expressão da meta ideal e brincadeira imaginária de eu idealizado.
Nunca existiu, exceto antes de ser escrito, quando fomos realmente reichianos.
Nunca tocou, exceto no que imaginamos sobre o toque que existiu, que foi toque nosso, de todos nós e de todas as contingências que não mais reconhecemos,
fios perdidos,
deste nó.
Arbaçus, leitores imaginários. <3
Entretanto, mesmo isso é pura árvore: não nos importamos com o retorno, porque não nos interessa o recalque. Não é num caixão que Romeu serve aos nossos propósitos, mas sim num museu ou dissecado em um laboratório. Por metafórico que seja, Romeu enterrado fortalece apenas árvores, arborescências e raízes encrustadas na terra e referidas sempre a um mesmo caule e dirigidas ao Sol.
E quanta coisa faz o desejo além de querer Sol!
Servimos Romeu na mesa, como ele mesmo pode prever antes da morte:
Rasgando a realeza, a real lesa, ar e a lesa,
Mastigo sua pele,
Meu mal
tenho
à mesa!
E devoramos. E é num estômago genital, no sentido reichiano, que ele será digerido. Será criação coletiva, não será dado como presente a ninguém, nem retido como um tesouro. Será produção socialista.
Mas Romeu não psicografa porque não é ego algum, Romeu é teatro, puro teatro de um falso futuro-meta, de péssimo gosto. Cafoníssimo, como diria algum de nossos colegas. O Romeu produzido, repetimos, não era ego, não era personalidade, não era nada além de teatro: superego, no máximo dos máximos, expressão da meta ideal e brincadeira imaginária de eu idealizado.
Nunca existiu, exceto antes de ser escrito, quando fomos realmente reichianos.
Nunca tocou, exceto no que imaginamos sobre o toque que existiu, que foi toque nosso, de todos nós e de todas as contingências que não mais reconhecemos,
fios perdidos,
deste nó.
Arbaçus, leitores imaginários. <3
domingo, 12 de outubro de 2014
Explicação sobre o Encaminhamento de Investir a Máquina Conectiva
Autoanálise em modo indivíduo (ativar! *tapa no morfador*)
Dos mil pontos de vista pelos quais você passou, camadas de olhares:
Um te vê como um animal de nicho barrado, transtornado, criado no cativeiro e mau caçador. Os outros olhares, ele os vê como magia, crendice antiga posta a funcionar e inventar mitos para fenômenos impressionantes.
Aí você pode se tornar mais eficaz e fluente em colocar algumas máquinas hegemônicas pra funcionar de um outro jeito. Poderia ser um dispositivo personaGidade pra lidar com isso tudo. O jeito hegemônico de fazer é tratar a si mesmo como objeto a ser iluminado. O jeito "diferença-com-meta" é desconstruir e pensar as peças de subjetividade que você vai colocando com base em alguns referenciais. Mas o essencial: você vai trabalhar sobre sua máquina hegemônica de conexão para aprimorá-la, em algum sentido mais ou menos dado, no caminho ou antes de sair de casa.
Estou sem meus óculos! Rs
Outro olhar (ou são olhares, aqui?) te vê como um excesso de mamãe-papai. E você funciona sempre no mesmo teatro ancião cujo autor chamei de Rûs-Têm. Ele e sua "Ela", sempre em uma fantasia neurótica repetitiva, absoluta e amargamente capturante.
Isso funcionaria com desinvestimento no Eu ideal, superinvestimento do Ideal do Eu, com ênfase em perdas fatais do objeto, perder pedaços de si no objeto perdido por autodepreciação culpada e supervalorizar o objeto como única saída para o corpo dominado.
Ele vê os outros olhos como ouvidos tapados para o sujeito-estrutura indefeso, ou como dispositivos elevados à forma reprodução-absoluta com função definida pelos jalecos.
Você pode então investir outros objetos, sempre outros, até que algum permita uma reconstituição de seu corpo imaginário por autoapreciação exitosa -- mas um investimento feito sem cuidado pode te marcar com o cheiro da "Ela" de Rûs-Têm, por exemplo. Você pode, por outra via, desfazer-se de "êxito" e "culpa", criar uma máquina conectiva que invista o performativo ao invés do ideal e ver o que acontece.
Sem máquina conectiva, de qualquer forma, o vivo torna-se morto.
Partindo das últimas coisas que aconteceram, o primeiro passo é reavaliar de forma que possamos parar de ruminar, ou desconstruir de forma que possamos parar de culpar.
Que o tato e o olfato tenham sido máquinas de reprodução, foi isso. Foi maravilhoso porque é como um "finalmente", "então era isso!". Tudo bem que seja assim... mas a faca cortou pelo outro lado e sabemos aí também por quê. Não era o fim, não era "isso" (e nem queremos que seja, ora!), só um novo engodo pelo imaginário reprodutor-neurótico, ou pela percepção disfuncional deprimida.
Avante.
Dos mil pontos de vista pelos quais você passou, camadas de olhares:
Um te vê como um animal de nicho barrado, transtornado, criado no cativeiro e mau caçador. Os outros olhares, ele os vê como magia, crendice antiga posta a funcionar e inventar mitos para fenômenos impressionantes.
Aí você pode se tornar mais eficaz e fluente em colocar algumas máquinas hegemônicas pra funcionar de um outro jeito. Poderia ser um dispositivo personaGidade pra lidar com isso tudo. O jeito hegemônico de fazer é tratar a si mesmo como objeto a ser iluminado. O jeito "diferença-com-meta" é desconstruir e pensar as peças de subjetividade que você vai colocando com base em alguns referenciais. Mas o essencial: você vai trabalhar sobre sua máquina hegemônica de conexão para aprimorá-la, em algum sentido mais ou menos dado, no caminho ou antes de sair de casa.
Estou sem meus óculos! Rs
Outro olhar (ou são olhares, aqui?) te vê como um excesso de mamãe-papai. E você funciona sempre no mesmo teatro ancião cujo autor chamei de Rûs-Têm. Ele e sua "Ela", sempre em uma fantasia neurótica repetitiva, absoluta e amargamente capturante.
Isso funcionaria com desinvestimento no Eu ideal, superinvestimento do Ideal do Eu, com ênfase em perdas fatais do objeto, perder pedaços de si no objeto perdido por autodepreciação culpada e supervalorizar o objeto como única saída para o corpo dominado.
Ele vê os outros olhos como ouvidos tapados para o sujeito-estrutura indefeso, ou como dispositivos elevados à forma reprodução-absoluta com função definida pelos jalecos.
Você pode então investir outros objetos, sempre outros, até que algum permita uma reconstituição de seu corpo imaginário por autoapreciação exitosa -- mas um investimento feito sem cuidado pode te marcar com o cheiro da "Ela" de Rûs-Têm, por exemplo. Você pode, por outra via, desfazer-se de "êxito" e "culpa", criar uma máquina conectiva que invista o performativo ao invés do ideal e ver o que acontece.
Sem máquina conectiva, de qualquer forma, o vivo torna-se morto.
Partindo das últimas coisas que aconteceram, o primeiro passo é reavaliar de forma que possamos parar de ruminar, ou desconstruir de forma que possamos parar de culpar.
Que o tato e o olfato tenham sido máquinas de reprodução, foi isso. Foi maravilhoso porque é como um "finalmente", "então era isso!". Tudo bem que seja assim... mas a faca cortou pelo outro lado e sabemos aí também por quê. Não era o fim, não era "isso" (e nem queremos que seja, ora!), só um novo engodo pelo imaginário reprodutor-neurótico, ou pela percepção disfuncional deprimida.
Avante.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Falar de amor, como falar, depois de tudo?
Passamos tanto tempo aqui calados,
Tanto tempo no túmulo em ti e em silêncio...
Falar dos teus restos nos entremeios de nossos poros,
Tua sensação, no que sobra em nossos sentidos,
Entre a alma, lá é que estás,
Entre a alma e a pele.
Aí é que o toque qualquer, qualquer toque,
O toque de hoje,
É o teu toque. Na cela de nossas celas, lá estás,
No vazio do nosso tato.
Pingas por dentro que sou houvesses apenas,
Houvesse apenas tu.
Ali está tu. E te cobrimos de pele e de sangue corrente.
Ali estás, infinitesimal migalha,,
Pedaço de fogo.
Queima minhas entranhas e polui os meus encontros,
Vibra no meu centro como se tudo girasse no entorno,
Sol do meu corpo, queimando a ordenar meus planetas,
Estrela guia do horizonte diante dos meu olhos.
Esmaga meu coração, doçura encantada do meu amor,
Atrai meu todo ao redor, que assim podes,
Faz-me o pouco ao redor, como sempre,
Mas brilha pra mim, pra que em mim haja vida.
Linda estrela, estrela escolhida!
Romeu (psicografado)
Passamos tanto tempo aqui calados,
Tanto tempo no túmulo em ti e em silêncio...
Falar dos teus restos nos entremeios de nossos poros,
Tua sensação, no que sobra em nossos sentidos,
Entre a alma, lá é que estás,
Entre a alma e a pele.
Aí é que o toque qualquer, qualquer toque,
O toque de hoje,
É o teu toque. Na cela de nossas celas, lá estás,
No vazio do nosso tato.
Pingas por dentro que sou houvesses apenas,
Houvesse apenas tu.
Ali está tu. E te cobrimos de pele e de sangue corrente.
Ali estás, infinitesimal migalha,,
Pedaço de fogo.
Queima minhas entranhas e polui os meus encontros,
Vibra no meu centro como se tudo girasse no entorno,
Sol do meu corpo, queimando a ordenar meus planetas,
Estrela guia do horizonte diante dos meu olhos.
Esmaga meu coração, doçura encantada do meu amor,
Atrai meu todo ao redor, que assim podes,
Faz-me o pouco ao redor, como sempre,
Mas brilha pra mim, pra que em mim haja vida.
Linda estrela, estrela escolhida!
Romeu (psicografado)
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Pela Tangente
Alto teor de café pode contribuir para que seus estados mentais evoluam de forma não adaptativa. Isso quer dizer que, se você estiver muito cafeinado e for muito neurótico, isso pode contribuir para que você se sinta mal ou faça coisas que te deixem mal, ou entre em situações que, no fim das contas, te deixarão triste.
Triste, a saber, é como ficamos ao descobrir que nossos olhos mentem. Especialmente se quem nos diz parece ser muito sensível, ou se quem nos diz nos dá um grandessíssimo abraço depois disso: falou aquilo com sinceridade.
As janelas da alma. Existirá tal coisa, a alma?
Psicanálise + psicanálise + psico-naturalismo pode deixar você um pouco confusa. Abraços, enquanto rituais sociais, não servem para melhorar, nesse sentido. Você pode estar ao redor dos magos da mente, eles não vão ver como você está sofrendo. Aliás, é provável que alguém relativamente mais despida dessa maldita fantasia de "processos mentais" ou "maquinações psi" te encontre, segurando-se pra não chorar, num maldito canto, ao redor dos humanos, absolutamente perdido em sua própria culpa por existir. Ela vai olhar pra você e é como se a coisa por dentro não se sustentasse mais.
Aí você chora.
Pode ser impossível não abraçar, nesse momento: aí sim, aí o abraço serve para melhorar. Não tem nenhuma prescrição social hegemônica a respeito de resgatar pessoas absolutamente neurotizadas de seu poço escuro. Não tem prescrição psicológica para inclinar-se sobre os amigos e abraçá-los, ou olhar nos seus olhos como ela olhou a gente. Só humanes fazem isso, humanes do melhor tipo. Qualquer coisa de indescritível acontece e você está sem possibilidade de escolher palavras. Você está sendo compreendido, não há o que fazer. E você continua contendo o choro, porque a neurose funciona assim... você continua querendo ser amado e você imagina - fantasia, é esse o seu fantasma, ou será que você se lembra...? - que há tipos de pessoas que recebem menos amor, ou que não conseguem sentir-se acolhidos se não for no olhar da compreensão que nos suga pra dentro do abraço... se não for no olhar que faz sentir dentro fora e fora dentro, o olhar transversalizante da existência - e nosso olhar (mentiroso e) transitivo se perde dentro daquilo.
Somos o Outro.
Você conta como foi que alguém desarmou completamente aquilo que "funciona a pesar de (...)" na neurose. E você pede desculpas por ter sido abatido (... por palavras tão simples e amáveis?). E ela vai dizer pra você não se desculpar. "Nunca é bobagem quando a gente sente", vai dizer. E você vai dizer "mas mas mas" e ela vai repetir com força: "Não, NUNCA (...)". Então você só abraça e se deixa esquecer um pouco de se culpar. É também um mecanismo da neurose, o perdão - a exceção que confirma a regra (ou a Lei, se preferirem). Parece não ouvir saúde-saída.
Você pode estar melhor, alguns dias depois.
Aí você pode ser confundido com alguém interessante, ou mesmo ser alguém interessante, ou parecer mesmo, ou estar existindo de uma forma que seja hegemonicamente investida. Mas você não sabe como lidar com isso. E tudo parece incerto quanto ao futuro - porque não é futuro, é PORVIR, porque as novas prescrições teórico-práticas e políticas são o que nos impede de escrever boa poesia.
As velhas poesias eram infestadas de dor.
E nós escapamos pela tangente da dor com "porvir", "corpo sem órgãos", "transversalidade" e "máquinas" de todos os tipos.
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